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Os passos de Fred Astaire

A cada 10 segundos cai um single na internet
E a cada 2 minutos sobe um novo podcast
E
O som do MP3 melhora no K7
No lado A da fita cabe o B do Indietracks...*

Sabem qual é um dos problemas do rock brasileiro de uns tempos pra cá, mais notavelmente no meio independente?
As bandas se levam a sério demais.

Nem falo do lado saudável disso, que é a profissionalização, autogestão da carreira, pois isso é o básico para qualquer profissional liberal que queira viver de seu ofício.

É que muitas bandas parecem se esconder atrás de uma relevância musical ou poética que, honestamente, não existe, nem existirá. E tampouco há problema nisso. Música pop é entretenimento, erudição tem que ser buscada na literatura ou em gêneros musicais mais sofisticados como o jazz ou choro.

Agora surgiu uma história de se tratar rock como uma ciência exata e de acreditar que há indie-cientistas que professam esse conhecimento. Conversa mole, besteira das grandes.

O rock se popularizou porque foi a expressão musical mais simples - no sentido de requerer pouco conhecimento musical teórico - que o jovem humano encontrou pra contar suas histórias ou embalar as suas festas. Hoje, pouco se percebe desse ímpeto juvenil desafiador original. As bandas parecem feitas sob medida para agradar sexagenários.

Ok, as pessoas crescem. Mas, Fred Astaire, segundo álbum do agora trio brasiliense Lucy and the Popsonics é prova de que é possível amadurecer sem perder a ousadia (nem a ternura). O disco é um chute de bico na caretice do existencialismo indie de mesa de boteco.

A produção impecável de John Ulhôa (Pato Fu) é só a cereja do bolo. Neste segundo trabalho, a banda mantém o humor característico, a ironia provocadora e o singular contraste entre a meiga voz de Fernanda e a poderosa parede de guitarras de Pil. Mas, tudo está mais encorpado, com jeito de banda grande. Não foi à toa que um baterista "humano" (Beto Cavani, ex-Suíte Super Luxo) foi convocado para ajudar a eletrônica Lucy, e reforçar essa pegada nas apresentações ao vivo. John também participa com programações e guitarras em quase todas as faixas.

Difícil destacar um ponto alto em um trabalho tão bem amarrado. Multitarefa, faixa de abertura, é uma música que o Devo poderia ter feito na semana passada. Popdoll Killer tem passagens que remetem ao Dead Kennedys psicodélico do disco Frankenchrist. As letras continuam espertas e ainda tratam do cotidiano com um sarcasmo bem dosado. Os questionamentos mudaram um pouco. As críticas aos modismos adolescentes presentes no primeiro disco, como Garota Rock Inglês, deram lugar a versos como: eu gostaria que a vida fosse lenta/Sobraria um tempo pro meu imposto de renda” ou “Vivo numa maquete/Me sinto um rato branco. Sou um experimento/Trabalho em um banco. As horas me oprimem/O elevador comprime e o digital distrai, que revelam uma angústia urbana mais adulta. Há também um improvável cover do Sepultura (Refuse/resist, do Chaos A.D.).
Fernanda, Pil e o 3º elemento, Beto Cavani
(foto: Nicolas Gomes)

Um disco para se ouvir no volume máximo e com um sorriso estampado logo a partir da primeira faixa. Afinal de contas, não é pra isso que serve esse tal de rock’n’roll?

... Camisa xadrez abotoada no pescoço
Suéter no calor e óculos de aro grosso


As melhores bandas são as de abertura
A cena mais bacana é indie-folk da Albânia...

Biff bang, Biff pop
Biff bang, Bang pop*


Pré-venda: http://www.monstrodiscos.com.br/loja/

Ouça a faixa Multitarefa abaixo:

*Versos da música Biff bang pop

Marchetteiras: Capital, Legião e Lobão ao vivo em 1984

Em 1984 eu estudava no Sigma, colégio recém inaugurado, com poucas turmas e alunos. Na minha classe estudavam dois playboys que eram primos.

Numa semana em que você só vai a escola fazer provas eu aproveitei e levei meu rádio gravador e algumas fitas com Plebe Rude (Seabra estudava lá também), Capital Inicial e Legião Urbana. Eram demos e shows ao vivo, mas bem gravados, do áudio tirado direto da mesa (da Legião era show recente já com “Será” e “Soldados” no repertório). Nesse dia acabamos as primeiras provas e nos sentamos no gramado para fumar (um cigarro) e escutar música.

Coloquei para eles Legião Urbana, mas não deu três músicas me fizeram tirar e colocar rádio. Eu insisti para que escutassem ao menos duas, acharam ruim e tiraram um certo sarro de “música punk” e então ficamos ali escutando rádio. Um ano depois, voltei a encontrá-los (um deles havia saído do Sigma). Eles estavam no estacionamento do colégio, sentados no carro e escutando música. Adivinhe o que os dois típicos playboys estavam escutando? O primeiro disco da Legião Urbana. Aí foi minha vingança. Além de tirar um belo sarro da cara deles, falei que perderam a chance de conhecer antes de todo mundo. A cara de bunda que eles fizeram é indescritível.
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Meses atrás buscando um álbum pra baixar me deparei sem querer com o compacto lançado pelo Capital Inicial em 1985. De um lado ‘Descendo Rio Nilo’ e de outro ‘Leve Desespero’. Não escutava esse registro há muito tempo.

Nisso me lembrei do último show de Capital Inicial e Legião Urbana que aconteceu em meados de 1984, em Brasília, antes de saírem da cidade e iniciarem a carreira profissional. Do Capital não sei ao certo se foi o último, mas da Legião com certeza. O primeiro show com as três bandas aconteceu exatamente há 27 anos atrás (1983).

O show aconteceu no Minas Tenis Clube e as atrações eram Capital Inicial, Legião Urbana e Lobão e Os Ronaldos. Aconteceu em um salão de eventos do clube, lugar pequeno e a maioria estava lá para ver Lobão e Os Ronaldos, ninguém conhecia Capital ou Legião.
Foi um show legal com gente esquisita. Foi a primeira vez que, em Brasília, Capital e Legião tocavam para um público diferente. Era a primeira vez que não tocavam para os amigos e amigos dos amigos. Foi a primeira vez que muitos brasilienses viram duas das maiores bandas da cidade iniciando a carreira profissional.


Com esse show – que também aconteceu com as três bandas no Circo Voador em 1983 – Capital e Legião ganharam os primeiros cachês profissionais. Acho que 10 mil dinheiros da época, o que não devia ser mais que dois mil reais hoje.

A ordem foi Capital Inicial, Legião Urbana e Lobão e Os Ronaldos. Os amigos ficaram dançando bem ao lado do palco, longe da playboizada que estava aglomerada em frente ao palco esperando Lobão. Na verdade esperavam “Corações Psicodélicos”, que era o que tocava nas rádios. Fizemos um pseudo círculo formado naturalmente e lá ficamos dançando, pedindo música e fazendo piada com os caras no palco (tudo na brincadeira). Clima ótimo. Os shows foram bons, incluindo o do Lobão.

Capital certamente tocou coisas como “Prova”, “Autoridades”, “Descendo o Rio Nilo”, “Leve Desespero”, “Psicopata”, “Veraneio Vascaína”, “Música Urbana”, “Fátima” e “No Cinema”. A Legião certeza que tocou “A Dança”, “O Reggae”, “Geração Coca-Cola”, “Perdidos no Espaço”, “Ainda é Cedo”, “Será”, “Soldados”, “Petróleo do Futuro” e “Teorema” e “Conexão Amazônica”. Lobão e Os Ronaldos tocaram praticamente o disco.

Agora, no caso da Legião e Capital, esse era o repertório que as bandas já vinham tocando desde 1983. As mais recentes da Legião eram “Será”, “Soldados” e “Perdidos no Espaço”; no Capital a mai nova era “Leve Desespero”.

Mas essa coisa de música mais nova ou mais antiga era coisa entre os amigos que já conheciam as bandas, o resto do pessoal que estava lá não entendeu nada dos shows do Capital e da Legião por não conhecerem as bandas e as músicas.

Depois desse show, Legião gravou o primeiro disco e Capital, passados alguns meses, se mandou para São Paulo. Depois disso só voltaram para Brasília como artistas nacionalmente conhecidos.


Juntatribo, 16 anos (atualizado em 20/08)

O festival Juntatribo, que aconteceu no campus da Unicamp (Campinas-SP) em 93 e 94 (e se não me engano, houve uma reedição recente) foi o marco zero do rock independente brasileiro. Foi um evento de repercussão nacional e não tinha um headline sequer do mainstream daquele momento. Ali, naquelas condições precárias, foi possível enxergar que a produção musical existia e que tinha cara e voz.

Grande parte das bandas relevantes dos anos 1990 estiveram no palco do Juntatribo, entre elas, duas das maiores daquela década, Raimundos e Planet Hemp.

Little Quail and the Mad Birds, Oz, Garage Fuzz e outras também fizeram apresentações históricas.

Abaixo, um especial produzido pelo canal EPTV, de Campinas, relembra o festival.



Atualização de 20/08: Neste outro vídeo, um apanhado geral de como foi o clima do evento (via Paulo Marchetti)

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