Eu conheci o
Gilbertos Come Bacon antes de começar a publicar o blog, e foi o nome esquisito me chamou a atenção. A verdade é que gosto de conhecer bandas com nome esquisito, mesmo que sejam umas m*rdas – o que não é o caso deles, diga-se. Aliás, pra mim, nomear banda é uma arte à parte, mas isso guardo pra outra postagem.
Então continuando, a planaltinense
Gilbertos Come Bacon é hoje uma das bandas brasileiras da novíssima geração, ao lado de
Macaco Bong,
Cérebro Eletrônico, Los Porongas e dos conterrâneos
Velhos e Usados, que conseguem incluir elementos distintos da música brasileira em seus rocks com decisão e personalidade. Algo longe do que parece ser a regra do circuito independente atual. No caso específico do
Gilbertos, eles conseguem equilibrar, sabe-se lá como,
rock pesado,
experimentalismo e
pop, vertentes aparentemente antagônicas. Vale destacar também a
percussão poderosa e as letras
bem elaboradas.
O vocalista João Angelini conversou comigo pela net e falou um pouco sobre a atual cena independente brasileira e o bom momento vivido pela banda, que vem sendo bastante elogiada em shows pelo Brasil e começa a conquistar seu espaço no cenário nacional com dignidade, coragem e competência profissional.
Cara, o Gilbertos tem tocado fora de Brasília com certa frequencia, como tem sido a resposta do público?
A resposta tem sido ótima. Nos últimos shows em
Fortaleza, na
Feira da Música, e em
Goiânia, no
Vaca Amarela, fomos muito bem recepcionados pela galera. A produção muito cuidadosa, e o público já esperando a gente. Roda de pogo nervosa e mosh rolando o show inteiro. Isso foi muito legal e diferente das viagens do ano passado nas quais ainda estávamos buscando terreno e público nesses locais.
Nas nossas
primeiras saídas
fora do DF a gente sempre foi bem recebido, e sempre teve um ótimo retorno, sempre com convites pra mais eventos. Mas o clima do show sempre era de surpresa, ninguém tinha ouvido falar da gente, sempre gostavam, mas ainda olhavam o show de forma desconfiada, analítica e deixavam de efetivamente curtir nosso som. Acho que é um caminho natural, afinal
nunca tinham ouvido a
Gilbertada e nosso som
não segue um formato convencional. Isso faz com que a postura do publico nos primeiros shows seja ainda de avaliação. Mas depois das apresentações a gente sempre colheu muitos elogios. Esse ano retornamos a dois lugares que tocamos ano passado:
Fortaleza e
Goiânia. Voltamos por reconhecimento das performances do ano passado. E tocar a segunda vez nos mesmos lugares foi bem diferente. Foram as primeiras vezes que tocamos fora e não fomos uma surpresa, dessa vez a galera meio que já esperava pelo nosso som. Reconheciam e vinham falar com a gente antes do show dizendo que estavam ali pra nos ver. Durante a apresentação, principalmente em Goiânia, tinha um pequeno grupo de, mais ou menos, umas 20 pessoas que pedia música e já cantavam boa parte do nosso show. Muito legal!
Esse ano o retorno da crítica tem sido muito bom também. Estamos com o CD na mão, rodando por aí. Essas duas cidades que passamos deram esse grande retorno. Uma série de resenhas carregadas de elogios. Muito legal.
Nessas andanças, chegaram a notar alguma diferença fundamental em relação aos shows por aqui?
Bom, fica dificil traçar alguns comparativos entre esses eventos. Na minha opinião está acontecendo um certo nivelamento nesses eventos, eles estão ficando cada vez mais parecidos. Ainda não sei se isso é ruim ou legal. Acho que bons exemplos devem ser seguidos e multiplicados, mas também acho que cada evento tem que ter um diferencial, uma particularidade. A
Feira de Fortaleza foi a
pioneira no formato, a primeira a promover uma rodada de negócios entre bandas e produtores, gravadoras, marcas de instrumentos, etc. Há anos promove, além dos shows, uma série de debates, palestras e encontros que interessam a classe artística e empresarial da música.
Esse formato se multiplicou e esse ano, aqui no nosso Porão, tivemos essa primeira experiência com dois dias reservados pra isso. Bom demais, pois esse espaço é super importante pra fortalecer a cena independentes e diminuir a distancia entra as diferentes instâncias da rede de produção da música. Diminuir o amadorismo e colocar os músicos, produtores e publico para conversar sobre as deficiências e qualidades da cena e do mercado. Mas ainda espero que, além de seguir bons exemplos, os organizadores dos eventos tenham coragem de experimentar novos formatos em busca de relações entre música e público.
Quanto aos nossos shows, a gente é sempre muito bem recebido tanto dentro de casa como fora. Claro que tem uma diferença. Aqui nos somos só mais uma banda, somos amigos de grande parte dos que assistem nosso show, existe uma relação de intimidade e proximidade muito legal, que faz a coisa ficar mais "quente". E fora a gente fica com uma aura mais "glamourosa": somos banda de fora, já comentada e esperada pela galera, tocando em horário de banda grande (fechamos o palco de Rock na Feira da Musica, por exemplo) e óbvio que isso cria um clima, uma expectativa no público e facilita a receptividade do nosso som experimental. Isso também cria um "calor" na apresentação. É diferente tocar aqui e em outra cidade, agradavelmente diferente.
E também tem a diferença básica entre capital e cidade do interior. Nas capitais o público é acomodado, meio reticente, demora pra engatar. Numa cidade do interior as pessoas se empolgam com mais facilidade, pois têm menos chance de ver show. Fui assistir a um show em São Paulo e a galera estava sentada, contemplando. Uma amiga comentou, “lá de onde eu venho isso aqui estaria fervendo”.
A gente viveu bem esse "frever" do interior em
Montes Claros (MG), ano passado, e em
Inhumas (GO) esse ano.Mesmo sendo desconhecidos nos lugares, fomos recepcionados com muita energia e rolou uma pogação de numa escala surpreendente. Não é a toa que as cidades do interior hoje, protagonizam as grandes iniciativas da música independente do Brasil.
Hoje, vivemos um momento único, pela primeira vez as bandas independentes dispõem de todas as ferramentas necessárias para que não dependam mais de terceiros para mostrar seu trabalho. Mesmo assim, algumas preferem se tornar, com perdão da redundância, um produto a mais na prateleira de "produtores independentes". O que você acha que atrai artistas para algo de que eles deveriam querer se livrar de uma vez por todas?
Cara, isso é
complicado demais. Um dia sentaremos só pra conversar disso, vai ser um papo longo, hehehe.
Primeiro acho que deveríamos
rever o termo
independente. Não acredito nisso. Acho que existe um
novo sistema, que leva esse nome de
independente, mas que na verdade
ainda continua a estabelecer r
elações de dependência entre os artistas e os novos empresários. Claro que existe em alguns casos uma espécie de acúmulo de funções, onde a própria banda ou artista é também o empresário, o produtor, o dono do selo, do coletivo, etc. Isso gera uma certa independência, pois não existe mais um mediador entre o artista e o público. Mas são poucos os casos desses "artistas-empresas".
Nas artes visuais isso é mais comum.
O marchand praticamente não existe mais, o
próprio artista vende o seu trabalho,
assume a postura de empresário da arte paralela ao papel de artista. Seria muito bom que mais bandas tomassem essa postura também, dependendo menos de terceiros.
Mas esse
artista-empresário não é resultado das novas tecnologias, dos acessos mais baratos e generalizados. É uma questão de postura. Esse papo de que a tecnologia diminuiu a distancia entre público e artista é muito delicada. Porque de um lado é verdade que seu som, vídeo, texto ou foto está na internet pra quem quiser ver. Por esse lado a coisa realmente facilitou o acesso. Mas temos que pensar também em como esse seu produto que está acessível circula, em como o público chega até o seu produto exposto. Assim como existe o seu trabalho, existe o de mais um bilhão de outras pessoas, todos se acotovelando. Pra se destacar nessa multidão, a dependência dos meios oficiais ainda é enorme.
Ter um
material na net não significa que ele vá ser visto e consumido. Aí que vemos que a coisa que é anunciada como a “revolução” na verdade não mudou tanto as velhas relações e o poder institucional de alguma marcas. Um vídeo, música ou texto, só vai ter um milhão de acessos se for divulgada por algum meio com mais poder e credibilidade. E essa história é perigosa demais. Porque serve de poder de sedução para artistas carregarem suas criações em sites como
MySpace e
YouTube na ingênua expectativa de terem visibilidade. Com isso abastecem essas empresas com produtos de qualidade gratuitamente, onde só quem lucra são essas empresas. Acho isso tudo muito errado, empresas como MySpace e YouTube lucrando milhões em cima do trabalho gratuito dos artistas. Qual banda ficou famosa só por esses recursos? As que aparecem na mídia como fenômenos da internet são em sua maioria falsas, fachadas. Na verdade sempre tem um empresário por trás injetando muita grana e influência, pra ter boas resenhas em blogs especializados de críticos já reconhecidos, pra ter tempo em matérias de jornais, pra ter entrevista em horário nobre, pra terem seus produtos indicados em premiações e tal. Depois disso, é claro que seu
MySpace vai bombar!
Vejo isso bem claramente no
MySpace do Gilbertos. A gente tem uma média de
30 audições de nossas músicas por dia. Quando temos nosso nome veiculado à divulgação de eventos que já têm muita mídia e espaço (como o
Porão do Rock) os números
sobem pra 250, 300 audições por dia. Isso é muito sintomático e confuso! Porque ao mesmo tempo em que é a força institucional do
Porão que eleva o acesso, é também esse espaço, o
MySpace que permite essa visualização. Acho que devemos usar isso tudo como ferramenta associada a mil outras ações, porque só pelos novos espaços, sem depender de outras ações, as únicas pessoas que lucrarão com o
MySpace e o
YouTube são seus respectivos donos.
Por não acreditar nessa independência, acredito que a relação dentro dessa cadeia é sempre pela busca da melhor posição na prateleira de produtos, sejam os novos festivais ou os velhos jornais e revistas.
Voltando aos shows. E o disco? já cantam as músicas nos shows, a bolachinha tem tido boa saída?
O disco vai bem. Inclusive tem um aqui guardado te esperando... AHehaehaehEAHEA (
Nota do RckBsb64: O Evandro Esfolando também me deu um cutucão pela minha enrolação para comparecer a eventos, hehehe).
Temos muito
orgulho do
resultado estético e sonoro, e a gente conseguiu vender um número significativo pra inserção que o
Gilbertos Come Bacon tem. Ainda não temos o primeiro relatório de vendas dos CDs e vendas pela net. Mas só da nossa mão já fora vendidos aproximadamente 300 cópias em menos de 4 meses.
Mas o mais importante do disco é o poder institucional que essa “mídia em declínio” ainda tem. A banda se apresenta com mais credibilidade. Infelizmente, o sistema ainda cresce o olho nessas coisas e dá pra sentir a diferença de tratamento que temos antes e depois do CD por parte de vários produtores pelo
Brasil.
Quanto a galera cantar as músicas, aqui em Brasília já vem rolando tem um tempo. Principalmente as músicas que já tinham versões ao vivo de ensaio no
MySpace. Em Fortaleza e, principalmente em Goiânia, tinha um pessoal que
tava pedindo músicas (como
Piolho,
Minha Casa e as versões de
Babau do Pandeiro). Cantavam as músicas e vários refrões. Sem contar as rodas de pogo e mosh!
Agora no final do ano vamos divulgar o disco e tocar no festival
Demo Sul, em
Londrina. Pra gente vai ser bacana fazer uma divulgação em uma região na qual ainda não tocamos, faz parte do nosso projeto, colocar o CD pra rodar em todas as regiões do país, juntamente com o nosso show. A Gilbertada vai e leva disquinhos e produtos de bacon junto!
Mas, pelo menos pra gente, tem uma grande diferença entre o show e o disco. Temos muito orgulho do resultado do disco, mas a empolgação do show é o nosso forte. No disco a gente pôde brincar com os arranjos, inventar, fazer novas coisas.
Mas nada substitui a graça de um show.
E na net, quando vão liberar o download gratuito? Já teve gente reclamando por eu não postar por aqui, hahahaha.
Vixe!
Esses fonogramas tem essa limitação. O selo responsável pelo CD (GRV) entende que o artista tem que ser pago sempre. A gente também acredita nisso, mas diferente, entendemos que o download gratuito é um investimento publicitário. O que acontece é que não temos controle sobre esses fonogramas. Apesar do Gilbertos Come Bacon ser uma banda 100% independente, sem vínculo nenhum com nenhuma gravadora, selo ou produtora, o nosso disquinho não tem o mesmo espaço e não nos pertence. Foi um prêmio que ganhamos no Festival Universitário promovido pela GRV no final de 2007. Apesar da banda conseguir se manter independente, não tinha como aceitar a premiação sem essa limitação com os fonogramas. Fazia parte do contrato aceitar essa parte de não deter esses direitos. Mas acho justo esse controle e essa postura da GRV, mesmo se o Gilbertos como banda acredita em posturas diferentes. Afinal, foi um prêmio que projetou a gente, que possibilitou um puta amadurecimento no processo de gravação e aprendermos a nos relacionar institucionalmente. Valeu a pena.
Mas a gente já tá preparando um disquinho novo. Esse nós ainda não sabemos como vamos gravar. Mas tá ficando lindo. Estamos bem mais maduros e fechados no nosso som. Agora temos distanciamento pra ver o produto do nosso processo experimental, que culminou no nosso 1º disco, e estamos só lapidando a estética do Rabicóre. Quanto mais a gente toca, mais fica claro pra gente que tipo de coisa tem cara de Gilbertos Come Bacon. Estamos conseguindo entender melhor nossa identidade. E esse disco a gente certamente vai botar pra geral baixar.
E antes do disco em si ficar pronto, planejamos lançar músicas avulsas no formato de single, pra garotada poder baixar se quiser e comprar no show a música física, no CD, com uma arte bacana. Conforme formos produzindo e gravando o disco, vamos “soltando” a gordura pra garotada se lambuzar.